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É certo que me mandas reprimir a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a ambição do século. Proibiste as uniões ilícitas, e, quanto ao casamento, embora o tenhas permitido, ensinaste que há um estado que lhe é preferível. E, com tua graça, optei por esse estado, antes mesmo de me tornar dispensador de teu sacramento. Mas ainda vivem em minha memória, de que falei longamente, as imagens dessas voluptuosidades: meus hábitos de outrora nela estão gravados, embora sem forças diante de mim quando estou acordado; mas durante o sono chegam não só até o prazer, mas até o consentimento e algo muito semelhante ao ato. Essas ficções têm tal poder sobre minha alma, sobre minha carne, apesar de tão falsas, que sugerem a meu sono o que a realidade não me pode sugerir quando estou acordado. Acaso então, Senhor meu Deus, eu não sou eu? Contudo, vai tão grande diferença de mim para mim mesmo, do momento em que passo da vigília para o sono até que volto do sono para a vigília! Onde está então a razão, que durante a vigília sabe resistir a tais sugestões e que permanece irremovível mesmo na presença da realidade? Acaso se fecha juntamente com os olhos? Acaso adormece juntamente com os sentidos do corpo? Mas por que, muitas vezes, mesmo no sono resistimos, lembrados de nossos firmes propósitos, e nele permanecemos em perfeita castidade, recusando nosso assentimento a essa espécie de seduções? E, contudo, a diferença é tal que, no caso contrário, tornamos a encontrar ao despertar a paz de consciência; e a própria dessemelhança dos dois estados nos mostra que não fomos nós que fizemos o que se fez em nós e que deploramos.

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