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Essa lembrança é comparável à que conserva de Cartago quem a viu? Não, porque a felicidade não se vê com os olhos, pois não é corpo. Acaso é comparável à lembrança dos números? Não, porque quem conhece os números não deseja adquiri-los, quando, pelo contrário, é a ideia que temos da felicidade que nos inclina a amá-la e a querer possuí-la, para sermos felizes. Lembramo-la, talvez, como nos lembramos da eloquência? Tampouco, embora, ao ouvir essa palavra, os que ainda não são eloquentes se lembrem da realidade que ela exprime, sendo muitos os que desejam ser eloquentes, o que indica que têm ideia da eloquência. Todavia foi pelos sentidos do corpo que eles deram atenção à eloquência alheia, deleitando-se com ela e desejando também ser eloquentes. E certamente não sentiriam prazer se não tivessem em si mesmos alguma ideia da eloquência, nem desejariam ser eloquentes se não se tivessem deleitado. Mas a felicidade não nos é revelada nos outros por nenhum sentido corporal. Essa lembrança será porventura comparável à lembrança da alegria? Talvez, porque, assim como, estando triste, me lembro da alegria passada, assim, sendo infeliz, lembro-me da felicidade. Ora, essa alegria eu jamais a vi, ou ouvi, ou cheirei, ou saboreei, ou toquei. Mas eu a experimentei em minha alma quando estive alegre, e seu conhecimento se fixou em minha memória, para que eu pudesse recordá-la, às vezes com desprezo, outras com desejo, segundo a diversidade das causas de minhas alegrias. Porque também me senti inundado de alegria causada por ações vergonhosas, cuja lembrança agora detesto e abomino; outras vezes alegrei-me por ações boas e honestas, das quais me lembro com saudade, mas já pertenciam ao passado, e por isso lembro-me com tristeza de minha antiga alegria.

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