E dizíamos: suponhamos alguém em quem se calasse o tumulto da carne, as imagens da terra, da água, do ar e até dos céus; em quem a própria alma se calasse, e se elevasse sobre si própria não pensando mais em si; se calassem os sonhos e revelações imaginárias, e, finalmente, se calasse por completo toda língua, todo sinal, e tudo quanto se faz passando — posto que todas essas coisas digam a quem lhes presta ouvido: não nos fizemos a nós mesmas; fez-nos o que permanece eternamente —, se, dito isto, se calassem, atentas a seu Criador. Admitamos que então o Criador fale sozinho, não por suas obras, mas por si mesmo, de modo que ouvíssemos sua palavra não por uma língua de carne, nem pela voz de um anjo, nem pelo ruído das nuvens, nem por enigmas de semelhança, mas o ouvíssemos a ele mesmo, a quem amamos nestas coisas, mas sem o intermédio delas, como agora nos estendemos e atingimos, num relance do pensamento, a eterna sabedoria, que permanece sobre todas as coisas, suponhamos que essa visão se prolongasse, que todas as outras visões inferiores cessassem, e unicamente esta arrebatasse a alma de seu contemplador e a absorvesse e abismasse em íntimas delícias, de modo que a vida eterna seja semelhante a este momento de intuição que nos fez suspirar, não seria isto a realização do entrar no gozo de teu Senhor? Mas quando se dará isto? Por acaso quando todos ressuscitarmos, mas nem todos seremos transformados?
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