Pular para o conteúdo

E, todavia, insinuou-se-lhe — como tua serva me contou a mim, seu filho —, insinuou-se-lhe certo gosto pelo vinho. Sua qualidade de menina sóbria fez com que seus pais a escolhessem, como era de costume, para tirar o vinho do tonel. Mergulhava a caneca pela abertura superior do tonel, e, antes de passar o vinho para a garrafa, sorvia com a ponta dos lábios um pouquinho: era-lhe impossível beber mais, porque o vinho lhe repugnava. Não fazia isto movida pelo desejo de beber, mas por certos excessos de exuberância juvenil, que fervilham em movimentos de brincadeira, e que nos ânimos infantis costumam ser reprimidos pelo peso da autoridade dos mais velhos. Mas, acrescentando todos os dias um pouco àquele pouco — pois quem despreza as coisas pequenas pouco a pouco vem a cair —, acostumou-se a sorver com sofreguidão pequenos copos quase cheios de vinho puro. Onde estava então a prudente anciã, e sua severa proibição? Mas que remédio agiria sobre um mal oculto, se tua medicina, Senhor, não velasse sobre nós? Na ausência do pai, da mãe e das amas, estavas lá tu, que nos criaste, que nos chamas, e que te serves dos que nos educam para fazer algum bem e para a salvação das almas. Que fizeste então, meu Deus? Como a socorreste? Como a saraste? Não fizeste sair de outra alma, segundo tuas secretas providências, um sarcasmo duro e pungente, como ferro medicinal, e de um só golpe cortaste aquela podridão? A criada que costumava acompanhá-la à adega, discutindo com sua jovem senhora, como costuma acontecer, estando as duas a sós, lançou-lhe em rosto esse defeito com amaríssimo insulto, chamando-a de bebedora de vinho puro. Ferida com esse sarcasmo, a jovem compreendeu a fealdade de seu costume, reprovou-o, e no mesmo instante se corrigiu. Assim como muitas vezes as lisonjas dos amigos nos pervertem, assim os insultos dos inimigos nos corrigem. Mas não é o bem que nos fazes por seu intermédio que retribuis, mas a intenção com que o fazem. Aquela criada zangada pretendia ofender sua jovem senhora, e não corrigi-la; e se o fez ocultamente foi porque assim as surpreendeu a circunstância do lugar e tempo, ou para que não viesse a sofrer por denunciar tão tarde o costume de sua senhora. Mas, tu, Senhor, governador do céu e da terra, que desvias para teus desígnios as profundezas da torrente e o curso dos séculos em sua desordem ordenada, curaste uma alma com a insânia de outra, para que ninguém, ao advertir no caso, atribua a seu poder pessoal o mérito de ter corrigido com suas palavras a alguém cuja emenda deseja conseguir.

Remover destaque