Pular para o conteúdo

Eu lia: “Irai-vos, e não queirais pecar.” E como me comovia este texto, meu Deus, eu que já havia aprendido a me irar contra mim mesmo por causa de meu passado, para não pecar mais, e a irar-me justamente, porque não era uma natureza estranha, procedente das trevas, a que em mim pecava, como dizem os que não se indignam contra si, e entesouram contra si ira para o dia da ira e da revelação de teu justo juízo! Meus bens já não eram exteriores, e eu não os buscava mais à luz deste Sol, com olhos carnais, porque os que querem gozar externamente facilmente se dissipam e derramam pelas coisas visíveis e temporais, lambendo com pensamento faminto as suas imagens. Oh! se eles se cansassem de sua privação, e perguntassem: “Quem nos mostrará os bens?” E se ouvissem nossa resposta: “Está gravada sobre nós a luz de teu rosto, Senhor!” Porque não somos nós a luz que ilumina a todo homem, mas somos iluminados por ti, a fim de que nós, que outrora fomos trevas, sejamos luz em ti. Oh! se eles vissem essa luz interior e eterna! Porque eu a havia saboreado, rangia os dentes por não poder mostrá-la aos que me apresentassem, em seus olhares dirigidos para fora, seu coração afastado de ti, e me dissessem: “Quem nos mostrará os bens?” Pois era ali onde me irritara contra mim mesmo, ali, na câmara íntima de meu coração, onde, arrependido, eu havia sacrificado e imolado em mim o velho homem, onde, pondo em ti minha esperança, começara a me preparar para a renovação de mim mesmo, ali começaras a te fazer doce para mim, dando alegria a meu coração. E clamava ao ler fora de mim essas palavras cuja verdade eu experimentara em mim; e não desejava mais multiplicar-me pelos bens terrenos, devorando o tempo e sendo por ele devorado, porque possuía na eterna simplicidade outro trigo, outro vinho e outro azeite.

Remover destaque