Ó Senhor, eu sou teu servo; eu sou teu servo e filho de tua serva. Rompeste minhas prisões: eu te sacrificarei uma hóstia de louvor. Louvem-te meu coração e minha língua, e que todos os meus ossos te digam: “Senhor, quem é semelhante a ti?” Que eles te digam essas palavras e que me respondas e digas à minha alma: “Eu sou tua salvação.” Quem era eu, e como era? Que males não houve em minhas obras, ou, se não em minhas obras, em minhas palavras, ou, se não em minhas palavras, em minha vontade? Mas tu, Senhor, bom e misericordioso, puseste os olhos na profundidade de minha morte, exaurindo com tua destra o abismo de corrupção do fundo de meu coração. Tratava-se agora apenas de não querer o que eu queria, e de querer o que tu querias. Mas, onde estava meu livre-arbítrio durante tantos anos? De que profundo e misterioso abismo foi ele chamado num instante, para que eu sujeitasse a cerviz a teu jugo suave e os ombros a teu fardo leve, ó Cristo Jesus, meu auxílio e meu redentor? Oh! que doçura foi para mim carecer de repente de doçuras fúteis! Temia então perdê-las, como agora sentia prazer em deixá-las! Porque tu as expulsavas de mim, tu, verdadeira e suma doçura: expulsavas-as, e entravas em seu lugar, mais doce que qualquer deleite, mas não para a carne e o sangue; mais claro que toda luz, mas mais íntimo que qualquer segredo; mais sublime que todas as honras, mas não para os que se exaltam em si mesmos. Livre estava já minha alma dos devoradores cuidados da ambição, do ganho, e do lodo em que se revolvia, e do prurido dos apetites carnais; e tagarelava contigo, ó Deus e Senhor meu, minha luz, minha riqueza, minha salvação!
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