Admoestado por essas leituras a voltar a mim mesmo, entrei guiado por ti em meu interior, e o pude fazer porque te fizeste minha ajuda. Entrei e vi com os olhos de minha alma, fosse como fosse, acima desses mesmos olhos, acima de minha inteligência, a luz imutável; não esta vulgar e visível a toda carne, nem outra do mesmo gênero, apenas maior — como se esta luz vulgar brilhasse muito e muito mais clara, e ocupasse tudo com sua grandeza. Não, não era esta luz, mas uma luz diferente, completamente diferente. Ela não estava sobre meu espírito como o azeite sobre a água, como o céu sobre a terra, mas estava sobre mim porque me criou; eu lhe era inferior por ter sido criado por ela. Quem conhece a verdade conhece esta luz, e quem a conhece conhece a eternidade. O amor a conhece. Ó eterna verdade, amor verdadeiro, amada eternidade! Tu és meu Deus. Por ti suspiro dia e noite. Quando te conheci pela primeira vez, tu me tomaste para me fazer ver que havia o que ver, mas que eu ainda não estava em condições de ver. E deslumbraste a fraqueza de minha vista com a violência de teu brilho, e me estremeci de amor e de horror. E descobri que estava longe de ti, na região da dessemelhança, como se ouvisse tua voz do alto: “Sou o pão dos fortes: cresce, e comer-me-ás. Não me transformarás em ti, como fazes com o alimento de tua carne, mas tu serás mudado em mim.” E conheci então que “castigaste o homem por causa de sua iniquidade”, e “fizeste definhar minha alma como teia de aranha”; e eu disse: “Porventura não é nada a verdade, porque não se acha difundida pelos espaços finitos e infinitos?” E tu me gritaste de longe: “Pelo contrário. Eu sou o que sou” — e eu ouvi como se costuma ouvir no coração, sem deixar lugar para dúvidas; antes, mais facilmente duvidaria de minha vida que da existência da verdade, que se manifesta à inteligência pela Criação.
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