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Esforçava-me por compreender a tese que ouvira professar, de que o livre-arbítrio da vontade é a causa do mal que fazemos, e de que teu reto juízo é a causa do mal de que padecemos. Mas não era capaz de entender isso nitidamente. E assim, esforçando-me por apartar desse abismo os olhos de minha alma, nele me precipitava de novo, e, tentando sair dele repetidas vezes, outras tantas voltava a me precipitar. Erguia-me para tua luz o fato de eu ter a consciência de possuir uma vontade como tinha consciência de minha vida. Assim, quando queria ou não queria alguma coisa, estava certíssimo de que era eu, e não outro, o que queria ou não queria, e então quase me convencia de que ali estava a causa do meu pecado. Quanto ao que fazia contra a vontade, notava que isso mais era padecer o mal do que praticá-lo, e julgava que isso não era culpa, mas castigo, pelo qual não hesitava em me confessar justamente ferido por ti, considerando tua justiça. Mas de novo refletia: “Quem me criou? Por acaso não foi Deus, que não só é bom, mas a própria bondade? De onde, pois, me veio o querer o mal e o não querer o bem, de modo que houvesse razão para eu sofrer justas penas? Quem depositou em mim e semeou em minha alma esta semente de amargura, sendo eu, por inteiro, obra de meu dulcíssimo Deus? Se foi o demônio que me criou, de onde procede ele? E se este, de anjo bom, se fez demônio, por decisão de sua vontade perversa, de onde lhe veio essa vontade perversa que o transformou em demônio, tendo sido criado anjo por um Criador boníssimo?” Esses pensamentos tornavam a me deprimir e sufocar, mas não me arrastavam até esse abismo de erro onde ninguém te confessa, e onde se julga que tu padeces o mal, em vez de pensar que é o homem quem o comete.

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