“Perca-se tudo! Deixemos essas coisas vãs e fúteis. Entreguemo-nos por completo à investigação da verdade. A vida é miserável, a morte, incerta. Se esta me surpreende de repente, em que estado sairei deste mundo? E onde aprenderei o que deixei de aprender aqui? Não serei antes castigado por essa negligência? Mas, e se a própria morte cortasse e pusesse fim a todo cuidado e sentimento? Também isso seria conveniente averiguar. Mas afastemos esse pensamento! Não é inutilmente, não é em vão que se difunde por todo o orbe o grande prestígio da autoridade da fé cristã. Deus nunca teria feito tantas e tais coisas por nós se com a morte do corpo terminasse também a vida da alma. Por que, pois, hesitar em abandonar as esperanças do século, para me consagrar por inteiro à procura de Deus e da vida feliz? Mas vamos devagar! Os bens deste mundo também têm sua doçura, que não é pequena. Não devo abandoná-los às pressas. Seria feio ter que voltar novamente a eles. Eis-me prestes a conseguir um cargo. Que mais se pode desejar? Tenho uma multidão de amigos poderosos. Sem me apressar muito, poderia, no mínimo, conseguir o governo de uma província. Poderei então casar-me com uma mulher de alguma fortuna, para que meus gastos não me sejam muito pesados: estes seriam os limites de meus desejos. Muitos grandes homens, e muito dignos de imitação, apesar de casados, dedicaram-se ao estudo da sabedoria.”
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