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Contudo, desde esse tempo, comecei a dar preferência à doutrina católica, porque me parecia que nela se mandava com mais modéstia, e sem mentira, a crer no que não era demonstrado — ou porque, embora existindo provas, estas não fossem acessíveis a todos, ou porque não existiam —, o que não acontecia entre os maniqueus, que zombavam da fé, prometendo com temerária arrogância a ciência, e depois nos obrigavam a acreditar em uma infinidade de fábulas completamente absurdas, na impossibilidade de demonstrá-las. Depois, com mão suavíssima e cheia de misericórdia, começaste, Senhor, a tratar e a preparar pouco a pouco meu coração, fazendo-me considerar quantas coisas inumeráveis eu acreditava sem ter visto, e a cuja realização eu não havia assistido: tantos fatos da história dos povos, tantas notícias relativas a lugares e cidades que não havia visto, tudo o que admitia confiando em amigos, em médicos e em outras classes de pessoas que, se não as acreditássemos, não poderíamos dar um passo na vida. E sobretudo, de que modo inabalável eu acreditava ser filho de meus pais, coisa que não poderia saber sem prestar fé no que ouvia. Então, me persuadiste de que os culpados não são os que acreditam em teus livros, cuja autoridade estabeleceste entre quase todos os povos, mas os que não creem neles, e que eu não devia dar ouvidos aos que talvez me dissessem: “Como sabes que esses livros foram dados aos homens pelo Espírito de Deus, único e verdadeiro?” Porque precisamente isto era o que eu devia crer, porque nenhuma objeção caluniosa, por mais agressiva que fosse, dentre as que eu havia lido em muitos escritos contraditórios dos filósofos, nunca conseguiu arrancar-me a certeza de tua existência, embora ignorasse o que eras, nem a certeza de que o governo das coisas humanas está entre tuas mãos.

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