Mas, desesperado de poder fazer algum progresso naquela falsa doutrina, ia retendo já com mais frouxidão e negligência aquelas mesmas opiniões com que decidira contentar-me, caso nada melhor encontrasse. Por esse tempo, veio-me também à ideia de que os filósofos chamados acadêmicos haviam sido mais prudentes que os outros, por sustentarem que se deve duvidar de tudo, e que nenhuma verdade pode ser compreendida pelo homem. Pareceu-me então que era esse o seu pensamento, como vulgarmente se julga, não tendo ainda compreendido suas verdadeiras intenções. Quanto a meu hóspede, não deixei de repreendê-lo, pela excessiva credulidade com que aceitava as fábulas de que estavam cheios os livros dos maniqueus. Contudo, era mais amigo desses homens que dos que eram estranhos à sua heresia. É verdade que já não a defendia com o primitivo entusiasmo; mas sua familiaridade — em Roma havia muitos deles ocultos — tornava-me mais preguiçoso para procurar outra coisa, sobretudo desesperando de achar a verdade em tua Igreja, ó Senhor dos céus e da terra, Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, verdade da qual eles me afastavam, por me parecer muito torpe acreditar que tinhas figura de carne humana, e que estavas limitado pelos contornos de um corpo como o nosso. E porque, quando queria pensar em meu Deus, não sabia imaginar senão massas corpóreas — pois não me parecia que pudesse existir algo diferente —, esta foi a causa principal e quase única de meu erro inevitável.
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