E de que me servia que, tendo vinte anos de idade, pouco mais ou menos, e chegando-me às mãos a obra de Aristóteles, intitulada As dez categorias — que meu mestre, o retórico de Cartago, e outros, considerados doutos, citavam com as bochechas a estalar de vanglória, fazendo-me suspirar por ela como por algo grandioso e divino —, de que me servia ler essa obra e compreendê-la sozinho? Falando com outros, que afirmavam tê-la entendido a custo, por intermédio de mestres eruditíssimos, que lha haviam explicado não apenas com palavras, mas também com figuras pintadas na areia, nada me souberam dizer que eu já não tivesse entendido em minha leitura particular. Parecia-me que essa obra falava com muita clareza das substâncias, como o homem, e das coisas que nelas se encerram, como a forma do homem; a estatura, quantos pés mede; o parentesco, de quem é irmão; onde se encontra, quando nasceu; se está de pé, sentado, calçado ou armado; se faz alguma coisa ou se padece alguma coisa, e, enfim, uma infinidade de relações que se contêm nestes nove predicamentos ou gêneros, dos quais citei alguns exemplos, ou no próprio gênero da substância, que são também inumeráveis os que encerra.
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