Pular para o conteúdo

Mas não acertava ainda em ver a chave de tão grande questão em tua arte, ó Deus onipotente, único criador de maravilhas, e assim ia-se minha alma pelas formas corpóreas, e definia o belo como o que agrada por si mesmo, e o conveniente como o que agrada por sua acomodação a outra coisa, e apoiava essa distinção com exemplos tomados dos corpos. Daqui passei à natureza da alma, mas a falsa opinião ou conceito que tinha das coisas espirituais não me permitia perceber a verdade. A própria força da verdade saltava-me aos olhos, mas eu afastava das coisas incorpóreas minha inteligência palpitante, voltando-a para as figuras, as cores e as grandezas materiais, e, como não podia ver nada semelhante na alma, julgava que tampouco era possível ver minha alma. Mas, como eu na virtude amava a paz e no vício aborrecia a discórdia, notava naquela certa unidade e neste certa divisão, parecendo-me residir nessa unidade a alma racional e a essência da verdade e do sumo bem, e, na divisão, não sei que substância de vida irracional e natureza do sumo mal, que não era apenas substância, mas também verdadeira vida, sem proceder, todavia, de ti, meu Deus, de quem procedem todas as coisas — assim opinava eu, miserável. E chamava àquela unidade mônada, como que mente sem sexo algum, e a esta divisão, díade — a ira nos crimes, a concupiscência nas torpezas —, sem saber o que dizia. Ignorava então, e ainda não havia aprendido que o mal não é nenhuma substância, nem que nosso espírito não é o bem soberano e imutável.

Remover destaque