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O tempo não corre debalde, nem passa inutilmente; por meio de nossos sentidos, causa na alma efeitos maravilhosos. Assim vinha e passava, dias após dias, e vindo e passando deixava em mim outras imagens e outras recordações, e pouco a pouco restituía-me a meus prazeres de outrora, a que ia cedendo minha dor, certamente, substituída não por outras dores, mas por causas de outras dores. Mas por que me penetrara aquela dor tão facilmente, até o mais íntimo de meu ser, senão porque derramei minha alma sobre a areia, amando a um mortal como se não o fora? O que mais me confortava e alegrava eram sobretudo as consolações de outros amigos, com os quais amava o que amava em teu lugar, isto é, uma fábula enorme e uma longa mentira, a cujo atrito adúltero se corrompia nossa mente, cheia de comichão nos ouvidos, fábula que não morria para mim, ainda que morresse algum de meus amigos. Outras coisas havia que cativavam mais fortemente minha alma a eles, como conversar, rir, servir-nos mutuamente com amabilidade, ler juntos livros bem escritos, gracejar uns com os outros e divertir-nos juntos; às vezes discutir, mas sem ódio, como quando discordamos de nós mesmos, para com tais dissensões, muito raras, condimentar as muitas conformidades; ensinar ou aprender reciprocamente muitas coisas, suspirar impacientes pelos ausentes e receber alegres os que chegavam. Esses sinais, e outros semelhantes, que procedem de corações amantes e amados, e que se manifestam no rosto, na língua, nos olhos, e em mil outros gestos graciosos, eram como brasas que fundiam nossas almas, fazendo de muitas uma só.

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