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Havia então um varão sagaz, peritíssimo na arte médica, na qual era celebérrimo, o qual, como procônsul, pusera com a própria mão sobre minha cabeça doente aquela coroa do certame — mas não como médico, porque daquela minha enfermidade só tu me podias sarar, pois resistes aos soberbos e dás tua graça aos humildes. Não obstante, porventura deixaste de cuidar de mim também por meio daquele ancião? Ou talvez desististe de curar minha alma? Digo isto porque, tendo-me familiarizado muito com ele, e sendo assistente assíduo e frequente de suas conversas, que eram agradáveis e graves, não pela elegância da linguagem, mas pela vivacidade das sentenças, como ficasse sabendo, por conversa, que eu me dedicava à leitura dos livros dos genetlíacos ou astrólogos, admoestou-me benigna e paternalmente que os deixasse, e que não gastasse inutilmente nessas quimeras meus cuidados e trabalho, que devia empregar em coisas úteis, acrescentando que também ele havia cultivado aquela arte, a ponto de querer adotá-la, em sua juventude, como profissão para ganhar a vida, pois, se havia entendido Hipócrates, podia também entender aqueles livros; mas que, por fim, deixara aqueles estudos pelos da medicina, apenas por sua falsidade, não querendo, como homem sério, ganhar o pão enganando os outros. “Mas tu”, disse-me ele, “que tens de que viver entre os homens com tuas aulas de retórica, segues essas mentiras não por necessidade, mas por livre curiosidade, razão a mais para que acredites no que te digo, pois cuidei de aprendê-la tão perfeitamente que quis viver apenas de seu exercício”. Mas, como eu lhe perguntasse por que muitas das coisas prognosticadas pela tal ciência eram verdadeiras, respondeu-me, como pôde, que a força do acaso está espalhada por toda a natureza. “Porque” dizia ele, “se às vezes, consultando alguém as páginas de um poeta qualquer, por acaso encontra um verso que, não obstante pensar o poeta em coisas muito diversas quando o compôs, adapta-se, contudo, de modo admirável, ao assunto que o preocupa, assim também nada tem de estranho que a alma humana, movida por instinto superior, inconsciente do que se passa em si, diga, não por arte, mas por sorte, algo que corresponda aos atos e gestos do consulente”.

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