Não conhecia a outra realidade — a que verdadeiramente é —, e, como que me julgando agudo, sentia-me movido a apoiar aqueles insensatos impostores quando me perguntavam de onde procedia o mal, se Deus estava limitado por forma corpórea, se tinha cabelos e unhas, e se deviam ser considerados justos os que tinham várias mulheres simultaneamente e os que matavam homens ou sacrificavam animais. Eu, ignorando essas coisas, perturbava-me com essas perguntas, e, afastando-me da verdade, pensava caminhar para ela, porque não sabia que o mal nada mais era que privação do bem, até chegar ao próprio nada. E como haveria eu de saber isso, se com a vista dos olhos não conseguia ver mais do que corpos e com a da alma não ia além dos fantasmas? Tampouco sabia que Deus é espírito e que não tem membros dotados de comprimento ou largura, nem quantidade material alguma, porque a quantidade ou matéria é sempre menor na parte que no todo, e, mesmo que fosse infinita, sempre seria menor em uma parte definida por um espaço determinado do que em sua infinitude, não podendo estar toda inteira em todas as partes, como o espírito, como Deus. Ignorava também totalmente o que haveria em nós segundo o qual seríamos semelhantes a Deus e com razão seríamos chamados na Escritura imagem de Deus.
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