Mas onde estavas então para mim? E quão longe, sim, quão longe peregrinava eu longe de ti, privado até das bolotas com que eu alimentava os porcos! Quão melhores eram as fábulas dos gramáticos e poetas que aquela armadilha! Porque os versos, a poesia e a fábula de Medeia voando pelo ar são coisas certamente mais úteis que os cinco elementos do mundo diversamente disfarçados, conforme os cinco antros ou covas tenebrosas, que não existem, mas que matam a quem neles acredita. Porque versos e poesia eu os posso converter em verdadeiro alimento, e, quanto ao voo de Medeia, embora o recitasse, não o afirmava, e, embora o ouvisse recitar, não o cria; mas naqueles erros acreditei. Ai, ai de mim! Por que degraus fui levado até as profundezas do inferno, cheio de fadiga e devorado pela falta de verdade! E tudo isso, meu Deus — a quem me confesso porque te compadeceste de mim quando eu ainda não te confessava —, tudo por buscar-te, não com a inteligência — com a qual quiseste que eu fosse superior aos animais —, mas com os sentidos da carne. Tu, porém, eras mais íntimo que o meu próprio íntimo, e mais alto que o meu mais alto. Assim vim a encontrar aquela mulher procaz e desprovida de prudência — enigma de Salomão — que, sentada em uma cadeira à porta de sua casa, diz aos que passam: comei à vontade dos pães escondidos, e bebei da doçura da água roubada, a qual me seduziu por andar vagando fora de mim, debaixo do império do sentido carnal da vista, ruminando em meu íntimo o que meus olhos haviam devorado.
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