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Cheguei a Cartago, e por toda parte crepitava a meu redor a sertã de amores impuros. Ainda não amava, mas amava amar, e com secreta indigência odiava a mim próprio por não me sentir mais indigente. Amando amar, buscava o que amar, e odiava a segurança e os caminhos sem armadilhas, porque tinha dentro de mim fome de alimento interior, de ti mesmo, ó meu Deus, embora eu não sentisse essa fome como tal; antes, estava sem apetite algum dos manjares incorruptíveis não porque estivesse saciado deles, mas porque, quanto mais vazio, tanto mais enfastiado me sentia. E por isso minha alma não se sentia bem, e, coberta de úlceras, lançava-se para fora de si, ávida de se coçar miseravelmente no contato das coisas sensíveis, as quais, se não tivessem alma, não seriam certamente amadas. Amar e ser amado era-me doce, mais ainda se chegava a gozar do corpo de quem me amava. Desse modo manchava com as imundícies da concupiscência a fonte da amizade, e obscurecia seu candor com os vapores tartáreos da luxúria. E, embora tão torpe e desonesto, desejava com afã, transbordando de vaidade, passar por elegante e cortês. Precipitei-me também no amor, pelo qual desejava ser capturado. Porém, ó meu Deus, misericórdia minha, quanto fel não misturaste àquela suavidade, e quão bom foste ao fazê-lo! Porque, enfim, fui amado, e cheguei secretamente ao vínculo do prazer, e me deixei atar alegre com penosos laços, para ser logo açoitado com as varas de ferro ardente do ciúme, das suspeitas, dos temores, das iras e das contendas.

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