É certo, Senhor, que o furto é punido por tua lei, e pela lei escrita no coração dos homens, que nem a própria iniquidade consegue apagar. Que ladrão há que suporte com paciência que o roubem? Nem mesmo o rico tolera isto ao que o faz forçado pela indigência. Também eu quis cometer um furto, e o cometi, não forçado por necessidade nem penúria alguma, mas por fastio da justiça e fartura de iniquidade, pois roubei o que tinha em abundância, e muito melhor. Nem me atraía ao furto o gozo que me proporcionava seu resultado, mas atraía-me o mesmo furto em si, o pecado. Nas imediações de nossa vinha, havia uma pereira carregada de frutos, que nem pelo aspecto, nem pelo sabor nada tinham de tentadores. Alta noite — pois até então ficáramos jogando nas eiras, conforme nosso pestilento costume — dirigimo-nos ao local, perversíssimos adolescentes que éramos, com o fim de sacudi-la e colher-lhe os frutos. E levamos grande quantidade dos mesmos, não para saboreá-los, mas para jogá-los aos porcos, embora comêssemos alguns, sendo nosso deleite fazer o que nos agradava justamente pelo fato de ser coisa proibida. Eis meu coração, ó Deus, eis meu coração, do qual tiveste misericórdia quando se encontrava na profundeza do abismo. Que este meu coração te diga agora que era o que ali buscava, para fazer o mal gratuitamente, não tendo minha maldade outra razão que a própria maldade. Era feia, e eu a amei; amei perecer; amei a minha queda — não aquilo a que caía, mas a própria queda amei. Torpe alma minha, que, saltando para longe de tua firmeza, te lançavas ao extermínio, não buscando na ignomínia senão a própria ignomínia.
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