Ai de mim! E atrevo-me a dizer que te calavas, meu Deus, quando eu me afastava de ti! É verdade que então te calavas comigo? E de quem eram, senão de ti, aquelas palavras que por meio de minha mãe, tua serva fiel, cantaste em meus ouvidos, embora nenhuma delas penetrasse em meu coração, para pô-las em obra? Queria ela — e recordo-me de que mo admoestou em segredo com grande solicitude — que eu não fornicasse, e, sobretudo, que não cometesse adultério com a mulher de ninguém. Porém, esses conselhos pareciam-me próprios de mulheres, que eu me envergonharia de seguir. Mas, na realidade, eram teus, embora eu não o soubesse, e por isso julgava que te calavas, e que era ela quem me falava — ela, por quem tu não te calavas para mim —, e eu te desprezava nela, eu, seu filho, filho de tua serva e servo teu. Porém, eu não o sabia, e me precipitava com tanta cegueira que me envergonhava entre os companheiros de minha idade de ser menos torpe do que eles quando os ouvia jactar-se de suas maldades, e gloriar-se tanto mais quanto mais torpes eram, e eu gostava de fazer o mal não só pelo prazer do ato, mas também pelo do louvor. Que é digno de vitupério senão o vício? E eu, para não ser vituperado, tornava-me mais vicioso, e, quando não havia à mão nenhum ato cuja prática me igualasse aos mais perdidos, fingia ter feito o que não fizera, para que não parecesse tanto mais abjeto quanto mais inocente, e tanto mais vil quanto mais casto.
Remover destaque