E, contudo, ó torrente infernal, em ti se precipitam os filhos dos homens, juntamente com o dinheiro que gastam para aprender tais coisas. E consideram acontecimento importante representar isso publicamente no foro, à vista das leis que lhes concedem salários públicos além dos honorários particulares. E, batendo em teus rochedos, ressoas, dizendo: “Aqui se aprendem as palavras; aqui se adquire a eloquência, sumamente necessária para persuadir e explicar os pensamentos”, como se não pudéssemos aprender as palavras: chuva de ouro, regaço, engano, templo celeste e outras mais, que se encontram escritas em determinada passagem, se Terêncio não nos apresentasse um jovem perdido que se propõe imitar a luxúria de Júpiter ao contemplar uma pintura mural “na qual se representava o mesmo Júpiter no momento em que, segundo dizem, descia como chuva de ouro sobre o regaço de Dânae, para enganar assim a pobre mulher”. E vê como ele se excita à luxúria, como que por um magistério celeste: “Mas que deus fez isto?”, diz. “Nada menos que o que faz retumbar a abóbada celeste com enorme trovão!” “E eu, homenzinho, não haveria de fazer o mesmo?” “Fi-lo, sim, e com muito gosto.” Não é que por essa torpeza se aprendam mais facilmente aquelas palavras; mas, por meio dessas palavras, comete-se com mais atrevimento essa torpeza. Eu não condeno as palavras, que são como vasos seletos e preciosos, mas condeno o vinho do erro que professores ébrios nos ofereciam nelas, e, se não o bebêssemos, éramos açoitados, sem que se nos permitisse apelar para algum juiz sóbrio. E, não obstante, meu Deus, cuja presença afasta o perigo dessa lembrança, confesso que aprendi essas coisas com gosto, e que me deleitei nelas, miserável, sendo por isso chamado menino de grandes esperanças.
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