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Porventura, Senhor, haverá alguma alma tão grande, unida a ti com tão elevado afeto, haverá alguma, digo — porque isto também pode ser produzido por certa estupidez —, haverá, repito, uma alma que, unida a ti com piedoso afeto, alcance tal grandeza de ânimo que despreze os potros e as garras de ferro, e os demais instrumentos de martírio — para fugir dos quais se te dirigem súplicas, com grande temor, de todas as partes do mundo —, e assim os despreze, rindo-se dos que têm deles tanto horror, como se riam nossos pais dos tormentos com que éramos castigados por nossos mestres quando meninos? Porque, na verdade, não os temíamos menos, nem te rogávamos com menor fervor para que nos livrasses deles. Contudo, pecávamos por escrever, ler e estudar menos do que nos era exigido, e não o fazíamos por falta de memória ou de inteligência, que, para aquela idade, Senhor, nos deste de modo suficiente, senão porque gostávamos de brincar; e castigavam-nos por isso homens que faziam exatamente o mesmo. Mas as futilidades dos mais velhos chamam-se negócios, enquanto as dos meninos, sendo a mesma coisa, são castigadas por eles, sem que ninguém se compadeça dos meninos, nem dos mais velhos, nem de uns e de outros. A não ser que algum bom juiz das coisas aprove que eu fosse açoitado, menino, porque jogava bola, e porque com este jogo me via impedido de aprender depressa as letras, com as quais, adulto, haveria de jogar mais vergonhosamente. Acaso fazia outra coisa o mesmo que me castigava? Se nalguma questão insignificante era vencido por algum colega seu, não era mais atormentado pela cólera e pela inveja do que eu, quando em uma partida de bola era vencido por meu companheiro?

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