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Há um paradoxo inegável no emprego da expressão “categorias ontológicas”, ao menos se nos limitarmos ao sentido assumido pela palavra “categoria” desde Kant. Pois, para Kant, as categorias são os conceitos fundamentais do entendimento puro, mas só nos permitem alcançar um objeto quando uma matéria lhes é fornecida pela sensibilidade, isto é, no interior da experiência; de modo que o que caracteriza as categorias é não terem alcance ontológico. É verdade que há categorias da modalidade, que incluem a existência entre a possibilidade e a necessidade; mas elas não têm caráter constitutivo e em nada contribuem para formar o conteúdo do juízo; concernem apenas ao valor da cópula em sua relação com o pensamento da experiência em geral. O mesmo não acontecia, contudo, com as categorias de Aristóteles, que ele chamava precisamente categorias do ser (χατηγορίαι τοῦ ὄντος e, apenas por abreviação, χατηγορίαι).

Eram, para ele, os predicados da proposição, isto é, os diferentes objetos da afirmação. Entre elas, somente a οὐσία — em cujo lugar, nos Tópicos, Aristóteles introduz o τί ἔστιν — tem, é verdade, valor propriamente ontológico, e pode-se dizer que as outras categorias a supõem e a determinam. Ela é a afirmação primordial que formulamos acerca do ser, e todas as outras afirmações, longe de acrescentar-lhe algo, explicitam os modos pelos quais ela se manifesta e, por conseguinte, a envolvem e dela não podem ser separadas. Se as categorias exprimem todas as formas possíveis da afirmação, elas não passam de uma efetivação dessa categoria suprema que é a potência absoluta da afirmação. Mas não é arbitrário, ao inscrever a οὐσία na tábua das categorias, excluir dessa tábua τὸ ὄν — que é o ente, e do qual se começou por reconhecer ser o objeto comum de todas as afirmações categoriais — e τὸ εἶναι, que é o ato próprio da afirmação enquanto se aplica tanto a τὸ ὄν quanto a todos os seus modos, quando, no entanto, nada se poderia dizer da οὐσία sem primeiro situá-la sob τὸ ὄν e sob τὸ εἶναι, para só então determiná-la, por sua vez, pelo jogo das outras categorias? As mesmas observações valem para o τί ἔστιν e o τὸ τί ἦν εἶναι. Mas a própria pluralidade desses termos nos convida a perguntar se, sob os nomes de οὐσία, de τὸ ὄν, de τὸ εἶναι, de τὸ τί ἔστιν e de τὸ τί ἦν εἶναι, Aristóteles não terá procurado apreender os aspectos múltiplos da afirmação como tal: pois podemos dizer que τὸ ὄν exprime o objeto próprio de toda afirmação possível, que τὸ εἶναι é o ato mesmo da afirmação, que a οὐσία, o τί ἔστιν e o τὸ τί ἦν εἶναι exprimem predicados imediatos da afirmação, a saber: a οὐσία, a unidade do objeto afirmado (mais propriamente do que seu suporte); o τί ἔστιν, o conteúdo da afirmação; e τὸ τί ἦν εἶναι, o fundamento de onde ela procede.

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