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Introdução à ontologia

Conclusão

Parágrafo 97

A possibilidade do mal aparece como uma espécie de contraprova de nossa tese: pois, assim como o ser exclui o não-ser, o bem também exclui o mal, em vez de convocá-lo como seu contrário. O ser e o bem, se os consideramos em sua pureza, são supra-relacionais: não têm contrário; só põem seu contrário para aboli-lo. Esse é, em relação ao ser, o sentido da fórmula de Parmênides — o não-ser não é —; e, em relação ao bem, o sentido da onipotência de Deus, à qual o mal não opõe resistência alguma. Mas os contrários nascem da própria participação, graças a uma oposição relativa entre o ser enquanto é participado e o ser enquanto não o é — ou entre o bem enquanto assumido por uma liberdade e o bem enquanto por ela recusado. Vemos assim que aquilo que cada coisa tem de não-ser, e que é o efeito de sua limitação, é sempre o ser de outra; e que o mal que cada liberdade tem o poder de introduzir no mundo (e sem o qual o próprio bem jamais se tornaria o seu bem) deve ser sempre correlativo de um bem negado, impedido ou destruído. Por isso, não há mal senão por uma liberdade particular, na medida em que o bem, em vez de lhe ser imposto, depende de uma escolha que ela precisa recomeçar sempre. Mas a primazia do bem fica patente quando vemos que a liberdade, enquanto escolhe entre o mal e o bem, é ela mesma um bem; que o próprio mal é sempre uma vontade de negação em relação ao bem; e que, enfim, ele mesmo pode ser convertido em bem. Poderíamos mostrar que todas as formas do mal, no mundo dado, têm assim um caráter de destruição — o que é singularmente instrutivo. Pois a destruição do fenômeno como tal, enquanto contrapartida da participação aceita, é apenas o sinal de uma recusa mais profunda — recusa do ser em sua fonte mesma —, ou, antes, de uma reversão, contra o próprio ser, do ser mesmo que se tornou nosso — o que supõe uma espécie de contradição introduzida no coração de nosso próprio ser, que busca, na negação do absoluto, elevar até o absoluto sua própria relatividade.

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