Conclusão
Parágrafo 98
A correspondência que estabelecemos entre as categorias ontológicas e as categorias axiológicas basta para mostrar que, se o ser é um ato que porta em si mesmo sua própria razão de ser, sua essência mesma é cumprir-se. E é, sem dúvida, uma só e mesma coisa, para ele, cumprir-se ou ser participado. Mas a participação faz dele, ao mesmo tempo, uma origem e um fim: é como fim que ele assume, para nós, o caráter do bem. Mas esse bem não pode, para nós, ter caráter abstrato algum, pois ele só é pela vontade que a ele se aplica. Por isso, assim como o ser só exprime sua eficácia pelas existências mesmas às quais não cessa de oferecer-se, e que medem o intervalo que delas o separa pela realidade que a elas se impõe — de modo que o ser nunca pode ser apreendido por nós sob uma forma separada, mas apenas no ponto de encontro entre a existência e a realidade —, do mesmo modo o bem seria, ele também, apenas uma pura denominação, se não residisse em um valor que cabe a nós, a cada instante, atualizar, e que, na medida em que o real nunca consegue encarná-lo, nos aparece sob a forma de um ideal que sempre nos obriga a superá-lo. O duplo objeto destas análises era, pois, mostrar que, se o ser não passa de um ato que se cumpre, e se todo cumprimento envolve uma distinção entre o possível e sua atualização, é preciso, ao mesmo tempo, que esse ser que se quer a si mesmo seja para si mesmo seu próprio bem, e que ele engendre em si, por um lado, a correlação entre a existência e o valor — que exprime nossa participação dividida no ser e no bem —; e, por outro, a correlação entre o real — que é o ser enquanto participado — e o ideal — que o supera, porque é o ser enquanto participável.