Conexão
Parágrafo 94
Quanto ao ideal, ele é apenas a consciência que tomamos, a cada instante, da insuficiência do realizado. Assim, ele é, por assim dizer, a lembrança nostálgica, no seio mesmo da participação, da perfeição do bem que sempre a supera. É por isso que ele pode apresentar-se sob duas formas: como uma fuga para fora do real pela imaginação — o que implica também uma condenação radical do real —, ou como uma exigência, em relação ao próprio real, de prosseguir indefinidamente seu próprio movimento no tempo, a fim de buscar obter uma coincidência impossível entre o real e o bem. Mas, se essa coincidência é impossível, não é vão, contudo, buscar obtê-la. Pois o real não é um fim, mas o meio momentâneo — e que sempre desaparece assim que serviu — que nos permite adquirir uma existência espiritual, isto é, uma existência que, na sequência das circunstâncias em que se encontra colocada, o bem não cessa de animar. Por isso, é preciso dizer do ideal, por oposição ao real, que ele é, ele mesmo, intemporal — e que, na medida mesma em que nos obriga a atravessar o real para espiritualizá-lo, nos dá a nós mesmos acesso ao intemporal.