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Introdução à ontologia · Segunda parte / Conexão

Conexão

Parágrafo 93

Se o valor é correlativo da existência, é preciso que, assim como a existência recebe do ser a possibilidade que ela atualiza, do mesmo modo o valor seja o bem que ela assume e que ela põe em prática. Assim, ao passo que o ser e o bem pertencem ao mundo da interioridade pura — a um mundo que se basta plenamente a si mesmo e que não participa de nenhum outro —, a existência e o valor aparecem ambos apenas com a participação. O ser e o bem são participáveis; mas a existência e o valor são participados. Por isso, só se pode pô-los, um e outro, pela correlação entre uma interioridade e uma exterioridade. E, se é por sua interioridade que são, um e outro, os veículos do ser e do bem, é preciso, ainda, que a exterioridade — na medida mesma em que é correlativa dessa interioridade — traga sempre, ela mesma, as marcas da existência e do valor. Mas o importante é, sobretudo, reconhecer que, se o ser e o bem se confundem no nível do absoluto, a existência e o valor se dissociam necessariamente no nível da participação. E é por isso que a própria existência é apenas uma possibilidade que precisa do tempo para atualizar-se, e que só consegue fazê-lo se cria o sentido mesmo do tempo como a condição mesma de seu progresso na ordem do valor: ainda é preciso que esse progresso — único que pode justificar a existência temporal, precisamente porque só pode depender de nossa liberdade — possa ser revertido a cada instante e converter-se em decadência ou em queda. E basta mesmo que a atividade interior afrouxe e se interrompa para que a inércia, o desgaste e todas as forças retardadoras — que limitavam a liberdade mas lhe forneciam a matéria de todas as suas criações — acabem por triunfar. É que a liberdade sempre teve de vencê-las. E é por isso que não se pode dissociá-la, ela mesma, do esforço. O que nos permite considerar que o valor nos revela sua forma mais perfeita no mérito. Mas a impossibilidade de o valor ser desprendido seja do tempo, seja do esforço — sem os quais ele não poderia ser nem obtido nem adquirido — acaba por mostrar-nos por que o valor tem necessariamente um caráter hierárquico: o que não se pode dizer da existência, enquanto esta ainda é apenas a existência de uma possibilidade e não começa a ser atualizada.

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