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Introdução à ontologia · Segunda parte / Conexão

Conexão

Parágrafo 92

Do próprio bem é preciso dizer que é um absoluto além do qual é impossível remontar. Mas, para compreender esse caráter, importa definir o bem não como o objeto do intelecto, mas como o objeto do querer. De fato, nada há que possa ser o objeto do intelecto, senão a representação ou a ideia. Ao passo que o querer é ser; ele é o ser mesmo do intelecto (o que permite dizer que a inteligência só tem alcance ontológico se, em vez de considerar nela a representação ou a ideia, considerarmos a operação mesma do querer, que, na raiz, se confunde com a sua própria). Mas, quando se examina a relação entre a vontade e o bem, percebe-se logo que nos encontramos diante do círculo característico de todos os termos primeiros. Pois pode-se dizer indiferentemente do bem que é o objeto do querer e do querer que é a busca do bem. Ora, se o querer é considerado enquanto atividade deficiente que se exerce para obter, precisamente, aquilo que lhe falta, o bem é apenas o querer saciado: por isso, o querer não pode ir além do bem. Isso não quer dizer que, no momento em que o possuímos, a atividade do querer se interrompa — pois, ao contrário, ela se exerce então de maneira plena e sem conhecer obstáculo. A partir daí, o bem já não é o fim do querer, mas o próprio querer em exercício: tal é também a essência mesma do ser, se o consideramos no princípio sem limitação, que permanece sempre presente por trás da limitação de cada um de seus modos. O bem tem, pois, ao mesmo tempo, um caráter de interioridade e um caráter de eternidade: de interioridade, pois é o coração mesmo do querer, que nenhum ato de participação consegue, sem dúvida, exprimir; e de eternidade, pois é ele que sempre se reencontra semelhante a si mesmo, como motor dos menores movimentos do querer. É, pois, o que há de interioridade em cada coisa — ou, antes, a fonte na qual ela busca o que a faz ser, mas que ela pode captar e desviar de seu curso; é o que sobrevive a todos os fenômenos transitórios, a todas as ações perecíveis, e lhes dá uma significação que não pode nem mudar nem perder-se. E ninguém pode pretender que ele seja uma denominação geral comum a todos os bens particulares. Pois, ao contrário, ele é aquilo mesmo que todos os bens particulares buscam exprimir, em certas circunstâncias determinadas, sem nunca chegar nem a igualá-lo, nem a esgotá-lo.

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