Ideal
Parágrafo 88
Convém agora examinar a relação entre o ideal — que é a ideia considerada em seu caráter dinâmico — e o próprio valor. Pode-se sustentar, sem dúvida, caso se aceite nossa concepção da ideia, que todo valor é uma ideia e que só há ideia do valor. Eis uma consequência que deve necessariamente produzir-se, caso se reduza o ideal à ideia. Obtém-se, assim, a vantagem de remontar da realidade até a existência, que, precisamente, para assumir a responsabilidade de si mesma, não pode dissociar a ideia que pensa do valor que tem de adquirir; o ideal, então, reencontra seu caráter positivo, pois a existência está acima da realidade, e ele é como uma exigência de produzi-la. Ao contrário, quando se limitava a opor o ideal ao real, havia o perigo, como se viu, de pensar que esses dois termos pudessem excluir-se — o que arriscava conduzir a uma condenação sem apelo do real (que, ao deixar de ser um meio a serviço do ideal, só podia justificar as queixas do pessimismo), e a uma relegação do ideal a um mundo irreal e quimérico, que não permitia explicar nem sua origem nem sua ação sobre nossa conduta.