Ideal
Parágrafo 87
A própria palavra ideal apresenta, é verdade, um inconveniente inegável. Pois o preconceito realista está tão fortemente enraizado em todos os espíritos, que sempre imaginamos o ideal sob a forma de um modelo preexistente, que a realidade imitaria de maneira mais ou menos fiel. Mas esse modelo não é uma coisa imóvel que pudéssemos contemplar à vontade antes de buscar dar-lhe um corpo em nossa experiência. Não há ideal senão pelo ato mesmo que empreende realizá-lo. O ideal é a própria ideia, mas considerada em sua eficácia prática — isto é, não apenas na operação que a põe em prática, mas na operação que a faz ser como ideia e que só pode cumprir-se por sua colocação em prática. A ideia é uma só coisa com esse dinamismo interior pelo qual ela se faz, ao mesmo tempo em que, por ela, todas as coisas se fazem. Ela nada é, mesmo como ideia, enquanto não começa a encarnar-se: mas porta em si a infinitude do espírito, que nenhuma encarnação consegue conter. A própria ideia platônica tinha, antes de tudo, um caráter moral; e a teoria das ideias nasceu, sem dúvida, de uma espécie de aplicação a todas as formas de existência das criações da vida moral. Se consideramos a ideia de uma virtude — a ideia de justiça, por exemplo —, compreendemos bem que ela seja uma ideia viva, que não possa ser pensada sem ser querida, ou, ainda, que pensá-la seja querê-la — de modo que ela convoca necessariamente uma realidade que, contudo, nunca coincide com ela. Assim se dá com a ideia de nós mesmos, que nossa vida nunca consegue realizar — pois nunca reconhecemos, no que fazemos, aquilo que queremos ser e aquilo que cremos que somos: mas essa ideia de nós mesmos, mais a buscamos do que a possuímos; é nossa vocação, da qual nada sabemos enquanto não a pomos à prova — mas para constituí-la. Ora, pensamos também as coisas por uma ideia — isto é, por um ato que nos permite engendrá-las em nosso espírito e pelo qual pensamos que elas também se engendram. Pois, se tal ato — ao menos nas coisas artificiais — não pode ser distinguido da operação que as fabrica, consideramos que, nos seres vivos, a ideia é essa potência interna que lhes permite criar-se a si mesmos (embora, neles, ela não chegue à consciência individual). A diferença entre o conceito e a ideia é agora particularmente clara, se é verdade que o conceito é apenas o esquema da coisa, ao qual esta sempre acrescenta traços particulares, ao passo que a ideia é uma eficácia secreta da qual a coisa visível dá testemunho, mas sem nunca conseguir igualá-la. Ela é, pois, em relação à coisa mesma, um ideal — mas um ideal que tem a mesma existência que o espírito e exerce sobre a coisa o mesmo ascendente; e a coisa, contudo, não cessa de desmentir um e outro.