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Introdução à ontologia · Segunda parte / Ideal

Ideal

Parágrafo 86

Essa exigência que se impõe a nós e essa impossibilidade em que estamos de realizar o ideal deve despertar em nós uma reflexão capaz de libertar-nos do desânimo e do desespero. Pois esses sentimentos só podem nascer para aquele que confunde a realidade com o ser. Mas sabemos que a realidade é, ela mesma, fenomênica e evanescente, que apenas passa, que é o meio ou o instrumento de nossa vida espiritual, e que não é nem seu fim nem seu desfecho. Daí se compreende por que é preciso que o ideal, sob pena de permanecer uma possibilidade pura, seja sempre expresso ou realizado; pois, de outro modo, não se tornaria nosso, não entraria em um mundo comum a todas as consciências; não as tornaria solidárias umas das outras. Mas desse mundo manifestado nos libertamos a cada instante, assim que ele cumpre seu uso. Pois é preciso que o ideal não possa ser realizado, para que o próprio devir seja, sem cessar, ultrapassado e espiritualizado. É o esforço pelo qual buscamos sem cessar encarnar o ideal sem o conseguir que o incorpora ao nosso ser mesmo — ou, ainda, que o obriga a converter-se de possibilidade pura em realidade, não mais material, mas espiritual. Que esse esforço para materializar o ideal e que o fracasso desse esforço sejam a dupla condição da criação mesma do eu é o que aparecerá com bastante clareza se considerarmos que a matéria exprime o limite de toda atividade de participação, e que ela deve sempre ser atravessada e ultrapassada para que esta possa cumprir-se e prosseguir indefinidamente.

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