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Introdução à ontologia · Segunda parte / Ideal

Ideal

Parágrafo 85

O real não pode ser desprendido de nossa experiência espaço-temporal. Ele é o que se nos oferece no instante sob uma forma espacializada. O que quer dizer que ele exprime nosso passado imediato — pois o instante, como tal, é uma pura passagem desprovida de todo conteúdo. Mas, de maneira geral, todo o passado, não apenas enquanto é realizado, mas, ainda, enquanto pode sempre ser evocado pela memória, pertence ainda ao real. Ao contrário, o ideal é sempre rejeitado, ou, antes, projetado por nós no porvir: é que o porvir é o lugar do possível, que cabe, precisamente, a nós atualizar — isto é, ao qual se trata de dar, para nós, a realidade que lhe falta. De fato, só a realidade está no tempo; e pode-se dizer que realizar-se é tomar lugar no tempo. O ideal, ao contrário, não é de tempo algum. Ao dizer que ele só pode tomar lugar no porvir, não pretendemos nem situá-lo, desde já, em um porvir que ele mesmo nada é, nem dizer que o porvir o acolherá um dia — pois esse porvir, ao realizá-lo, o abolirá, precisamente, como ideal. Queremos dizer que o porvir, em que contamos com uma conversão incessante do ideal em real, só se converterá em presente abrindo sempre diante de nós um porvir novo, em que ela prossegue indefinidamente.

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