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Introdução à ontologia · Segunda parte / Ideal

Ideal

Parágrafo 83

Contudo, a oposição entre o real e o ideal pode ser tomada em um sentido bem diferente. Pois, por um lado, essa oposição pode ser um meio para nós de excluir a participação. Nesse caso, o caráter essencial do ideal é ser irreal. Ele só tem sentido para mostrar-nos as misérias do real. É apenas um sonho da imaginação — o objetivo de uma aspiração que projetamos no porvir, e do qual bem sabemos que está fora de alcance. Implica uma maldição do presente e, pela impossibilidade em que estamos de captá-lo, um desespero que ele renova sem cessar. Perguntarão, contudo, de onde provém esse próprio pensamento que dele temos, por que o próprio presente nos parece insuficiente, e onde se alimenta essa atividade que o ultrapassa pelo sonho da imaginação. Se alguém pretende que basta, para opor o ideal ao real, fazer uma comparação entre as formas de realidade que nos foram oferecidas alternadamente, e poder sentir o que nos falta pela experiência do que conhecemos e que ainda alimenta o desejo, então o descrédito não atinge mais a totalidade da realidade, e admite-se que há intervalos diferentes entre o ideal e o real — pois é a acontecimentos reais que o ideal ainda recorre para as próprias imagens que o sustentam. Mas, então, admite-se que existe uma certa participação do real no ideal, e que o ideal exprime, talvez, a lei fundamental da participação, ao mesmo tempo a lei que a torna possível e a lei que a torna exigível como um dever. Mas, nesse caso, a oposição entre o real e o ideal recebe um sentido inteiramente outro. Pois é preciso dizer desses dois termos não que se excluem um ao outro, ou que cada um deles é a negação do outro, mas apenas que estão separados por um intervalo — a fim, precisamente, de que esse intervalo possa ser transposto por um ato, que é a criação de nosso ser próprio. Se o ideal não é o real, é porque só há ideal para que seja realizado. Sabemos, é verdade, que ele não pode sê-lo: mas só está para além de toda realidade para produzir sempre alguma realização nova.

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