Ideal
Parágrafo 82
Se a realidade é sempre negada em nome do valor — pois o que caracteriza o valor é jamais poder ser realizado —, essa negação mesma implica a afirmação do ideal. É em nome do ideal que ela é feita — tanto é verdade que a negação é sempre a contrapartida de uma afirmação que ela exclui. A afirmação do ideal está implicada na negação do real exigida pelo valor. O ideal é, pois, o próprio valor enquanto não real ou não realizado; poderíamos acrescentar: enquanto nunca podendo sê-lo e devendo sempre sê-lo. Pode-se assim levar a antinomia entre os dois termos ao extremo e contentar-se em definir o real e o ideal como dois contraditórios que se excluem reciprocamente. Mas são apenas dois contrários. Entre eles, como entre todos os contrários, há um caminho; e, como o caminho entre duas universais que se chamam contrárias em lógica reside na afirmação da particular, ele reside aqui no ato de uma liberdade situada, ela mesma, no ponto de encontro do ideal e do real, e que tenta realizar o ideal e idealizar o real. O ideal é o chamado do valor — isto é, uma referência ao bem —, enquanto o que caracteriza a existência é, precisamente, encarná-lo. De fato, não se pode sequer dizer do real e do ideal que sejam dois contrários em sentido rigoroso da palavra: só o são por uma visão simplista que, desprendendo o real da atividade da qual procede, e o ideal da atividade que ele desperta, os confina em dois mundos separados. Contudo, não há forma de realidade que não possua um certo valor para nosso espírito, na medida em que é uma participação iniciante, mas que ele deve promover indefinidamente. Nesse sentido, o ideal não é um domínio heterogêneo ao domínio do real: ele exprime apenas essa impossibilidade, para a participação, de jamais interromper-se; apenas essa exigência, inerente a ela, de reconhecer seus limites e de ultrapassá-los sem cessar; apenas a infinitude do ser de que ela bebe e que se converte para ela em bem, a partir do momento em que, depois de dele se ter separado, ela tenta reencontrá-lo e torná-lo seu. Assim, a palavra ideal já não aparece simplesmente como a negação da realidade — isto é, do realizado. É apenas a marca de sua limitação ou de sua insuficiência. Obriga a participação a ultrapassar-se sem cessar. Atesta a impossibilidade de deixar subsistir, no ser, nada que não deva tornar-se, para nós, um bem e, por conseguinte, ser participado — isto é, realizado.