Pular para o conteúdo

Introdução à ontologia · Segunda parte / Ideal

Ideal

Parágrafo 81

Como há entre o ser e o bem uma simetria de fato que oculta sua identidade profunda, e entre a existência e o valor uma simetria imperfeita, que dá lugar à iniciativa da liberdade, há entre o real e o ideal uma simetria inversa, que dá a um o que falta ao outro. Pode-se dizer do bem, com efeito, que ele é a essência do ser; e do valor, que é a significação da existência. Ao contrário, a realidade e o ideal formam um par indissolúvel — mas que é um par de opostos. Cada um desses termos é a negação do outro. Ou, antes, se o dado é sempre o real — isto é, o realizado —, é o ideal que se define a si mesmo como sendo, em relação a ele, uma negação. Mas ele só é, no real, a negação da determinação — isto é, da limitação. Ora, vê-se sem dificuldade que não pode ser de outro modo, e mesmo que essa negação aparece como o único meio de conservar a simetria entre a ordem ontológica e a ordem axiológica, tal como ela se havia manifestado nas análises precedentes. Pois, se o ser e o bem só se identificam na fonte da participação, a existência e a realidade são correlativas uma da outra a partir do momento em que a participação começou: então, a existência exprime o ato mesmo que a faz ser (e é por isso que porta em si o valor como uma exigência à qual, é verdade, na medida em que o ato que ela implica é um ato livre, pode faltar); ao passo que o que caracteriza a realidade é exprimir aquilo que, em relação a esse ato, se apresenta sempre, ao mesmo tempo, como uma ultrapassagem e uma limitação. Pois essa ultrapassagem se produz para o exterior, e não para o interior: não é a consciência de um ato mais puro ao qual estamos unidos e do qual não cessamos de receber, mas a coação que tal ato nos impõe de fora, na medida em que a operação que cumprimos o evoca, mas sem dispor de uma potência suficiente para acabar de torná-lo nosso. Tal é a razão pela qual a realidade, se a tomamos em sentido estrito, é apenas um puro dado, em aparência heterogêneo ao ato que a faz nascer e indiferente ao valor. Ora, é inevitável que tal ato descubra nela, ao mesmo tempo que sua própria limitação, uma presença que, de certa maneira, responde aos seus desejos e que ele era incapaz de dar a si mesmo. Nesse sentido, a realidade possui ainda um valor — mas é um valor derivado, que provém do ato que a convoca e do qual se pode dizer, alternadamente (como fazem alternadamente o intelectualismo e o empirismo), que ela o limita e que ela o supera. — Mas, se consideramos a existência no ser que a funda, a realidade aparece como a marca de sua insuficiência — daquilo que ela é incapaz, por sua única operação, não apenas de produzir, mas, ainda, de penetrar e de assimilar. Por isso, a realidade, qualquer que seja a riqueza que nos traga, mostra-nos, por esse aporte mesmo, que a participação deixa de ser considerada em seu ato, mas no dado que ele suscita e que é a expressão de seus limites. Assim, posto que essa realidade nasce no ponto mesmo em que o ato de participação vem, por assim dizer, morrer, a realidade pode já ser definida em relação a ele como sendo uma negação. E é a razão pela qual o papel da consciência é, precisamente, tomar a realidade por objeto a fim de aplicar a ela sua própria atividade e, pouco a pouco, reduzi-la a essa atividade. A ambição da ciência foi sempre poder construir o mundo por uma operação comparável à das matemáticas; a ambição da vida moral, fazer de todos os objetos que estão no mundo os meios e os instrumentos de nossos atos livres. — A partir daí, a atitude do espírito diante da realidade só pode ser definida por uma dupla negação: pois, por um lado, se a realidade enquanto dada é uma negação em relação à atividade do espírito, o espírito diante da realidade só pode proceder por uma nova negação, que, sendo uma negação de sua própria negação, o obriga a retomar confiança em sua própria atividade na medida em que esta se atribui a si mesma uma eficácia perfeita, que não aceita limitação nem fracasso. É essa atitude do espírito que engendra, precisamente, a noção de ideal.

Parágrafo 81 has loaded