Valor
Parágrafo 80
Compreende-se agora que o mundo dos valores, que está sempre em correlação com o exercício de nossa atividade no tempo, seja um mundo hierárquico, no qual distinguimos necessariamente graus ou níveis diferentes. Compreende-se também por que ele introduz necessariamente uma dualidade entre o bem e o mal; pois o valor pede para ser afirmado, mas não seria o valor se não pudesse também ser negado. E, apesar das aparências, há solidariedade entre a alternativa entre o bem e o mal — que parece ser a do tudo ou nada — e a ideia de uma hierarquia de valores. Pois é porque o valor depende da vontade engajada no tempo que há uma escala dos valores que se pode subir ou descer. A oposição entre o bem e o mal — ou, como se diz às vezes, entre os valores positivos e os valores negativos — exprime apenas a possibilidade que nos é, sem cessar, oferecida, de uma ascensão ou de uma queda. Contudo, se o bem pode ser negado, essa negação, que não ultrapassa a ordem da participação, em nada afeta a identidade entre o ser e o bem: é uma vontade positiva de negação que exprime a perfeição mesma de nossa liberdade enquanto procede do ato puro, mas guarda, contudo, em sua esfera própria, uma independência absoluta que lhe permite negá-lo, senão como ser, ao menos como bem. Mas nenhuma vontade — como vimos na crítica de Schopenhauer — pode encontrar em si recursos que lhe permitam condenar-se a si mesma, a não ser pela lembrança que guarda de uma vontade pura, da qual se desprendeu, e que só parece estranha à consciência porque é seu princípio ativo e gerador. A fraqueza do pessimismo está em imaginar que o ser humano pode elevar-se por seu próprio poder até a ideia de um bem em nome do qual quer julgar o ser do qual participa — em vez de perceber que essa ideia é a do ser absoluto considerado em sua atividade autocriadora, à qual ele mesmo permanece sempre desigual, e que o julga.