Valor
Parágrafo 79
Já encontraremos uma ilustração dessa ideia no exemplo dos valores econômicos, que não se incorporam sem paradoxo à tabela dos valores, mas que nos permitem apreender seus traços essenciais em uma espécie de imagem material. São valores de utilidade — isto é, que, como o próprio nome indica, só são valores em relação a outra coisa: a saber, primeiramente, à manutenção de nosso corpo; em seguida, à vida mesma de nosso espírito, da qual nosso corpo deve ser considerado a condição de existência. Ora, a própria ideia da utilidade já introduz essa noção de tempo que nos pareceu essencial à definição do valor — precisamente porque o que caracteriza o valor é sempre estar em relação com uma atividade de participação cujo papel próprio é adquiri-lo; além de o valor útil supor sempre uma certa transformação das coisas, que põe em jogo, ao mesmo tempo, a vontade e o esforço. — Contudo, o valor já se apresenta sob uma forma mais interiorizada nas afeições da sensibilidade, as quais, embora estejam sob a dependência do corpo e das coisas, fazem do corpo e das coisas os simples veículos dos estados de consciência: ora, na consciência, o desejo — sem o qual a afeição não poderia nascer — testemunha, mais uma vez, a ligação entre o valor e o tempo. — Os valores estéticos, por sua vez, concernem às coisas apenas enquanto estas são dignas de ser contempladas — de modo que, se não podemos desprendê-los de toda relação com o corpo (pois, de outro modo, eles talvez deixassem de afetar-nos), pelo menos, com eles, os interesses do corpo já não entram em jogo: em sua forma mais alta, os valores estéticos exprimem o caráter das coisas que faz com que sejam queridas tal como são, ou tal como queremos que sejam. E o tempo, aqui, é necessário para que possamos produzir em nós sua representação, pelos recursos da arte ou da simples imaginação. — Enfim, o valor sob sua forma propriamente moral depende somente da vontade — embora o que caracterize a vontade seja sempre produzir uma ação na qual o mundo inteiro se encontra interessado. O valor, aqui, erige-se em juiz do ato de participação — ou, ao menos, o ato de participação torna-se juiz de si mesmo: ele funda o mérito da pessoa, seu direito a existir; e, se dizemos, às vezes, das próprias coisas que merecem existir, vê-se bem que essa expressão só tem sentido em relação à pessoa mesma, da qual elas exprimem ou favorecem o desenvolvimento. Mas esse próprio desenvolvimento, como o ato da vontade que o produz, só pode ter lugar no tempo.