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Introdução à ontologia · Segunda parte / Bem

Bem

Parágrafo 67

Contudo, talvez haja um paradoxo em sustentar que o bem é inseparável do ser porque o ser é um ato que se cria eternamente a si mesmo, que esse é, sem dúvida, o único meio de assegurar ao ser sua interioridade a si mesmo, e que essa interioridade é fielmente exprimida pela palavra vontade. Pois é preciso aceitar essa ideia de uma vontade que é boa por si mesma, quando, ao contrário, podemos pensar que a vontade é especificamente má — não apenas porque é necessariamente deficiente e privada daquilo que busca e que lhe falta, mas, ainda, porque, como mostra Schopenhauer, o mal reside em seu próprio exercício e só cessa quando ela cessa? Todavia, a vontade da qual se trata aqui não pode ser confundida com o ser-ato tal como o descrevemos: pois o ser de que falamos é plenitude e não deficiência, é impossível que algo lhe falte; e, se é ato, é nesse sentido que ele é o princípio de toda eficácia — de modo que todo ser ao qual algo falta recorre a ele para dar-se a si mesmo. É, pois, um ato que se fecha sobre sua própria suficiência, ou, o que vem a dar no mesmo, que se abre à possibilidade de uma participação infinita. Além disso, a vontade da qual fala Schopenhauer é uma vontade cega, que é uma potência desprovida de interioridade; e seria preciso dizer que ela é estranha ao bem e ao mal, até o momento em que se divide em vontades particulares: então, o mal nasce de sua limitação e de seu conflito. Contudo, perguntarão como o mal pode ser, ele mesmo, sentido como mal. De onde provém também o juízo que o condena? Não é ele o sinal da presença, em nós, de uma atividade espiritual com a qual se identifica nosso próprio eu, no momento em que rejeita essa natureza que lhe é imposta e da qual busca dessolidarizar-se — embora ela seja, talvez, a condição e o meio de seu próprio progresso. Mas onde estão o ser e o querer verdadeiros? Nesse impulso que nos constrange, ou no pensamento que se põe acima dele para amaldiçoá-lo? Pois não se pode dizer que esse pensamento se encontre, ele mesmo, reduzido à impotência diante desse mal metafísico que é o fundo mesmo do ser. Ele lhe traz remédio pela piedade ou pela contemplação estética. Dirão que esses são remédios ilusórios? Mas essa expressão ainda tem sentido? E esses remédios — é no próprio ser que lhes encontramos a origem. De modo que a diferença entre o bem e o mal parece residir no uso mesmo que fazemos da atividade da qual participamos: conforme, contentando-nos em sofrer tudo o que nela nos ultrapassa, somos constrangidos e como esmagados pela natureza, ou, ao contrário, penetrando em sua interioridade e aceitando torná-la nossa, descobrimos e cumprimos nela, ao mesmo tempo, nosso ser e nosso bem. Talvez seja preciso dizer que o erro de Schopenhauer é, após ter posto em balança a inconsciência e a consciência, o instinto e o pensamento, ter limitado o ser aos primeiros termos desses dois pares — de modo que os dois outros são apenas ilusões enganosas, que podem ainda servir antes para nos consolar do que para nos curar. Ora, além de a origem dessas ilusões como tais permanecer sempre obscura — pois é no próprio ser que elas se enraízam —, é nelas que o ser, ao contrário, se nos revela em sua fonte mesma e em sua ação autocriadora, de modo que o ser que se lhe opõe só pode ser definido em relação a ele e que, de maneira geral, o limita e o obscurece.

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