Bem
Parágrafo 65
De fato, encontramo-nos aqui diante de duas teses contrárias que, precisamente porque são verdadeiras uma e outra segundo dois pontos de vista opostos e complementares, pedem ambas a ser superadas. Uma sustenta que o ser é mais que o bem, pois o bem não é senão uma ideia que o ser atualiza; e a outra, que o bem é mais que o ser, porque acrescenta ao ser uma qualidade que o valoriza. Ora, nas duas interpretações, o ser de que se trata é a existência ou a realidade; mas, por um lado, não se pode fazer com que o bem, enquanto é uma ideia, não esteja inscrito no ser; e, se é uma ideia, que essa ideia não tenha mais ser do que a existência ou a realidade, que são sua expressão e sua limitação. E, por outro lado, concebe-se que o bem acrescente algo à existência ou à realidade; mas o que ele lhes acrescenta é, precisamente, essa interioridade pela qual elas penetram, uma e outra, no ser — em vez de serem dele apenas uma forma assumida ou uma forma manifestada. Por conseguinte, o ser não pode ser mais que o bem, pois é apenas o bem em ato, fora do qual o bem nada é, nem sequer uma ideia; e o bem não pode ser mais que o ser, pois é também o ser em ato, fora do qual o ser nada é, nem sequer uma aparência. O que mostra que, no ato, o ser e o bem são indiscerníveis.