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Introdução à ontologia · Segunda parte / Bem

Bem

Parágrafo 64

Essa compenetração do bem e do ser — que é inevitável se o ser é ato, isto é, se encontra em si mesmo sua própria razão de agir, de modo que, em vez de subordinar-se ao bem ou de ser por ele julgado, é ele que o dita e que o julga — encontra, contudo, resistências no preconceito que faz com que se considere o ser como sendo, ele mesmo, estático, sendo o bem, ao contrário, o princípio dinâmico, que se julga dever ser, primeiramente, estranho ao ser, para ser capaz de atraí-lo e movê-lo. E é por isso que, na esteira de Platão, somos inclinados a considerar o bem como estando para além do ser, como sendo uma espécie de sobre-ser que o que caracteriza o ato será fazer ser. Mas pode-se dizer que isso é confundir o ser com a existência ou a realidade. Compreende-se muito bem que a existência, que é o próprio ser enquanto engajado na participação, e a realidade, que é o próprio ser enquanto participado, não coincidem com o bem; contudo, isso traz precisamente a prova de que o ser e o bem não podem ser distinguidos em si mesmos, mas apenas na perspectiva sob a qual os consideramos um e outro. Pois podemos dizer que o ser é precisamente o bem enquanto oferecido à participação, e que há nele uma infinidade na qual ela busca e que jamais iguala. Podemos dizer ainda que o bem é o ser enquanto não é o produto, mas a fonte da participação. Não é, portanto, estranho que o bem tenha podido ser considerado como superior ao ser; mas isso é, sem dúvida, porque não se considera no ser nada mais do que o ser participado. Ao passo que o bem é o próprio ser enquanto participável, ou a participabilidade enquanto é posta como um valor — como mostraremos no capítulo seguinte. Mas o que caracteriza a participação é, ao nos dar o ser que nos é próprio, fazer desse ser o nosso bem; o que só é possível se o ser no qual buscamos o poder de fazer-nos, e que se faz a si mesmo eternamente, for o bem em ato — longe de ser o bem um modelo exterior ao ser, do qual não se vê nem como poderia subsistir fora do ser, nem como o ser poderia imitá-lo. Por isso, é preciso dizer que a hierarquia do mundo no platonismo é uma hierarquia, ao mesmo tempo, segundo o ser e segundo o bem — ainda que não possa alterar nem a unidade do ser nem a unidade do bem, implicadas, uma e outra, por cada um dos graus da hierarquia, que convoca todos os outros.

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