Bem
Parágrafo 62
Tal análise nos permite compreender por que o bem não pode ser considerado um princípio diferente do ser, e tal que seríamos obrigados a supor no ser uma tendência pela qual, ao buscar o bem, ele buscaria precisamente aquilo que lhe falta. Mas não se pode conceber que falte algo ao ser, pois nada há que possa ser considerado como lhe sendo estranho. E a tendência, em vez de ser um movimento do ser para um fim que lhe seria, de algum modo, exterior, é um movimento interior ao ser, que não pode ter por fim senão o próprio ser. É em relação a ela que o ser é qualificado de bem, para marcar que ele é, para si mesmo, seu próprio objeto ou seu próprio fim. Se o ser é aquilo a que nada falta — ou, ainda, aquilo que se basta absolutamente —, só podemos exprimir esse caráter na linguagem do ato, isto é, do querer, evocando aquilo que é querido absolutamente, não como meio em vista de outra coisa, mas como termo último, do qual todos os quereres particulares são as condições ou os meios. Ora, tal é, com efeito, a definição do bem. E, sem dúvida, o objeto de tal vontade só pode ser a própria vontade. É essa reduplicação do querer — que só pode ser o querer de um querer (assim como o ser só pode ser o ser de um ser) — que nos mostra que estamos diante de um termo primeiro ou último, de um absoluto além do qual somos incapazes de remontar. Mas essa perfeita suficiência do querer, que é o querer de si mesmo, põe-nos diante de um movimento imóvel, ou de uma atividade que encontra seu repouso em seu próprio exercício.
Talvez seja preciso dizer que não estamos sem experiência de uma tal vontade — que, desprendida e indiferente em relação a todo fim particular, só atinge seu próprio cume nessa possibilidade que ela mesma tem, às vezes, de bastar-se ou de experimentar-se como inteiramente senhora de si. Só se pode conceber a identidade do infinito e do perfeito sobre o modelo dessa suficiência experimentada e vivida — e, contudo, incondicional.