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Introdução à ontologia · Segunda parte / Bem

Bem

Parágrafo 61

Para que essa fórmula possa parecer-nos verdadeira, é preciso que consideremos o ser e o bem em si mesmos, independentemente de seus modos; ou, então, é preciso considerar nesses modos não aquilo que os limita e os separa (e que só nos mostra sua deficiência), mas o próprio princípio que os faz ser e que os torna todos solidários. De outro modo, eles se afastam do ser para tornar-se objetos em uma experiência em que cada um figura um obstáculo contra o qual a vontade não cessa de chocar-se. Apenas, é impossível que a reflexão se aplique a qualquer objeto sem trazer à luz sua relação com o todo do ser — isto é, sem descobrir seu ser próprio. Mas este não tem significação para nós senão por sua relação com o ato mesmo do qual procede — ato que só pode ser reencontrado por uma vontade que aplicasse à própria coisa sua intenção mais desprendida e mais pura. Essa análise justifica as observações que fizemos na primeira parte, ao mostrar que, se o ser é causa de si, há nele identidade entre o ser e a razão de ser — ou, ainda, ele é sua própria razão de ser, o que poderia ser entendido em sentido propriamente intelectual se se tratasse de um ser representativo, mas que deve ser entendido em sentido prático, pois se trata não apenas de um ser que se pensa, mas de um ser que se dá o ser a si mesmo. Ora, o bem é precisamente o nome que damos a essa razão de ser, que justifica não um ser já dado, mas esse ser que se dá o ser, que se quer ser, ou que faz seu próprio fim do ato de ser que é seu ser próprio. O bem torna-se, assim, a chave do problema ontológico, a potência soberana que permite ao ser ser causa de si e, se quisermos, a eficiência secreta que, antes de propor qualquer termo ao ato criador, o torna, antes de tudo, criador de si por si. Mais ainda: essa fórmula aparentemente contraditória, que torna o ser, ao mesmo tempo, causa e efeito de si mesmo, e que só apresenta sentido por uma transposição da linguagem do tempo a um ato que é, ele mesmo, independente do tempo, encontra uma espécie de justificação nesse caráter do bem do qual podemos dizer que é, ao mesmo tempo, a causa do ato e seu efeito; e esse círculo mostra suficientemente bem que o bem não pode ser distinguido do próprio ato — isto é, do ser — e que é o princípio mesmo que o interioriza, isto é, que o faz ser.

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