Bem
Parágrafo 60
Pois, se o ser mesmo não é um objeto ou uma coisa (tendo o objeto ou a coisa sempre um caráter fenomênico), é preciso que ele seja uma atividade que se produz a si mesma eternamente. Mas haveria a mesma superstição em considerar o bem como residindo em um fim último que se trataria, para nós, de atingir, e no qual nossa atividade saciada viria, por assim dizer, terminar e morrer: ele reside em nossa atividade considerada em sua forma mais perfeita e mais pura; esta só tem seu fim em si mesma, e o mal se introduz nela com as resistências e os limites aos quais ela sucumbe — ou nos quais se compraz —, e que a impedem de jamais ser igual a si mesma. Mas, então, as definições do ser e do bem coincidem necessariamente. Assim como o ser cede assim que encontra algum limite que o fenomenaliza, assim como o ser de cada coisa é, para nós, não o espetáculo que ela nos dá, mas o ato mesmo do qual ela depende em nós ou fora de nós, do mesmo modo o bem reside, para nós, na pureza de uma vontade que não se deixa determinar de fora — isto é, seduzir — e que sempre encontra em si a razão interior de cada uma de suas ações. Compreende-se, pois, facilmente o sentido que se deu, por longo tempo, à célebre fórmula: ens et bonum convertuntur.