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Introdução à ontologia · Segunda parte / Bem

Bem

Parágrafo 59

Sendo o bem definido como o objeto próprio da vontade, pode-se dizer que nada há no mundo que não seja o objeto prévio da vontade — pois é o mundo inteiro que é querido por cada vontade particular, para que ela possa, ela mesma, exercer a menor ação. Compreende-se, portanto, que, se nada há no mundo que não deva ser considerado como bom, na medida em que a vontade a ele se aplica, se possa dar uma extensão muito mais geral à palavra de Pascal — segundo a qual à medida que se tem mais espírito, descobrem-se mais belezas originais — e dizer que, à medida que a vontade é mais perfeita, descobre também mais bem nas coisas: seja porque cada coisa lhe aparece como a expressão de uma vontade invisível, seja porque lhe aparece como respondendo, de certo modo, aos seus desejos, seja porque ela se torna, para a vontade, a ocasião de uma ação que ela não poderia cumprir de outro modo. Sem dúvida, não confundimos o bem com a realidade, que distinguimos do ser ao defini-la expressamente como a fenomenalidade; e não há fenômeno que possa ser identificado ao ser, embora esteja em relação com ele e dele testemunhe; ora, tampouco podemos identificar o fenômeno ao bem, ainda que ele não possa ser considerado como privado de toda relação com este, pois é solidário desse mundo no qual a vontade se exerce e que a limita, embora ela deva sempre reconhecer nele, até certo ponto, a expressão ou a matéria de sua ação. Não basta, pois, fundar de maneira geral a correlação entre o ser e o bem na universalidade e na univocidade das duas noções. Só podemos presumir entre elas uma identidade mais profunda se nos damos conta de que essas duas noções só são distintas a partir do momento em que a inteligência e a vontade foram distinguidas uma da outra, mas que ambas procedem de uma atividade mais alta, na qual o ser e o bem são idênticos.

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