Distinção
Parágrafo 54
Tal análise nos permite compreender o privilégio ontológico da vontade: qualquer que seja sua limitação ou sua fraqueza, ela nos obriga a apreender nosso ser próprio na operação mesma que o produz — tudo o que vem de outra parte, mesmo da natureza, é, em relação a ela, estranho e, até certo ponto, coercitivo. Pois, embora as condições de possibilidade do ato de vontade devam ser realizadas para que ele possa entrar em jogo, é evidente que, no momento mesmo em que se cumpre, ele é um primeiro começo, e não tem outro ser senão aquele que dá a si mesmo: assim, é a vontade em estado puro que nos permite apreender o ser no ato que o torna nosso. Ora, se é, sem dúvida, impossível despojar esse ato de todas as circunstâncias que o acompanham, de todos os obstáculos que o retardam, de todos os efeitos que deixa após si, contudo, esse próprio ato é independente dessas circunstâncias, desses obstáculos e desses efeitos; é de outra natureza. Ele não quer objeto algum nem fim algum, embora todo objeto seja para ele um ponto de aplicação e todo fim aparente um meio e um instrumento. Não pode querer nada mais do que a si mesmo. Mas, reciprocamente, não se poderia conceber ato algum que não fosse, por sua vez, um querer que se quer. Ora, não há diferença entre dizer desse querer que ele se quer e dizer que afirma seu próprio valor e põe em si mesmo a identidade do ser e do bem. Essa identificação nos conduzirá necessariamente a definir a essência de uma vontade pura — isto é, de uma vontade que não se deixa determinar, isto é, seduzir, por nenhuma causa estranha. Encontramos aqui a fonte indivisa do ontológico e do axiológico, que só se oporão um ao outro em uma vontade imperfeita — em que o ontológico virá degradar-se no real, e o axiológico, no ideal.