Distinção
Parágrafo 55
A distinção entre a ontologia e a axiologia só foi explicitada na época moderna. Daí nasceram todas as oposições clássicas que não cessamos de estabelecer entre o ser e o bem, o valor e a existência, o real e o ideal. Mas pode-se dizer que, sobre este ponto, a especulação hesitou: pois, se não se pode deixar de considerar o real e o ideal como dois contrários, é possível, do mesmo modo, considerar o valor como a negação da existência e o bem como a negação do ser? De fato, parece que o bem não pode ser separado de toda relação com o ser, do qual exprime a razão de ser; nem a existência, de toda relação com o valor, que não cessa de promovê-la; nem mesmo o ideal, de toda relação com o real, que é a matéria em que é preciso que ele venha encarnar-se. — Contudo, a dignidade das categorias axiológicas conduz-nos a rebaixar as categorias ontológicas, ou, antes, a criar entre as duas ordens de categorias uma espécie de divórcio — de modo que parece que, ali onde umas estão presentes, as outras estão necessariamente ausentes. O que permite à consciência lançar, em uma espécie de pessimismo radical, um descrédito absoluto sobre tudo o que é, e opor, em um conflito ao mesmo tempo paradoxal e insuperável, a uma existência sem valor um valor sem existência — em vez de buscar como poderiam aliar-se. A oposição entre o ser e o valor, à qual, em geral, não se dá uma forma mais precisa, é simétrica, em nossos dias, à antiga oposição entre o ser e a aparência. Apenas, ao passo que a aparência era desqualificada em proveito do ser, é hoje o ser que é desqualificado em proveito do valor. Mas isso é, talvez, apenas uma mudança de perspectiva, que poderíamos facilmente explicar caso percebêssemos, por um lado, que o bem outrora era identificado ao ser — pois era, por assim dizer, o cume mesmo dessa afirmação pela qual o ser é posto, de modo que, ali onde a relação entre o ser e o bem se rompia, o ser deixava de ser ser, isto é, ato, para converter-se em fenômeno —; e, por outro lado, que o ser hoje é precisamente identificado ao fenômeno, de modo que, ali onde o valor é evocado, ele exprime ainda a interioridade mesma do ser (tal como é apreendida nas exigências fundamentais da consciência), ao passo que, opondo-o ao real, queremos dizer apenas que ele é incapaz de fenomenalizar-se. Assim, não se pode crer que, nessa dualidade fundamental, que se estabelecia outrora entre o ser e o fenômeno e hoje entre o ser e o valor, o pensamento humano se tenha renovado tão profundamente quanto se pensa; nela se reencontra sempre a distinção fundamental entre o ato e o dado, mas que era interpretada outrora em proveito do ser contra a aparência, como o é hoje em proveito do valor contra o ser. Pois a questão será sempre saber se queremos pôr o ser do lado do valor ou do lado do fenômeno. A oposição entre o valor e o fenômeno é a mesma nos dois casos: apenas, no primeiro, o valor justifica o ser; no segundo, sob o nome de ser, é o fenômeno que ela condena.