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Introdução à ontologia · Segunda parte / Distinção

Distinção

Parágrafo 52

Há mais: podemos dizer que a distinção das duas razões, ao introduzir uma nova clivagem nos princípios da afirmação, parece reformar e condenar radicalmente a «tética» tradicional, da qual o argumento ontológico, pode-se dizer, era a forma culminante. Por isso, vemos Kant recusar-se a passar da ideia de Deus à sua existência — como se o que caracterizasse a Crítica da razão pura fosse, precisamente, mostrar a impossibilidade, para a razão teórica, de sair dos limites da representação e de apreender, na própria representação, um ser que seria outra coisa que não um ser em relação ao sujeito. — Contudo, se evocamos as conclusões de nossa primeira parte, as duas formas da afirmação (teórica e prática), em vez de opor-se radicalmente, aproximam-se e sustentam-se; pois, além de um ser em relação ao sujeito ser ainda — com o sujeito ao qual se refere — inseparável do absoluto do ser, cuja presença manifesta de alguma maneira, pode-se observar ainda:

1º que a relação do ser, ou da ideia do ser, com o sujeito cognoscente pode, de certa maneira, ser invertida — pois, se é verdade que esse ser ou essa ideia só têm sentido em relação ao sujeito que os apreende, esse sujeito não pode, contudo, pôr seu ser próprio, ou mesmo a ideia que tem de si mesmo, senão como uma determinação desse ser ou dessa ideia do ser, que igualmente o ultrapassam e que, por sua vez, o envolvem;

2º se voltamos à forma propriamente cartesiana do argumento, vemos que não apenas o pensamento finito supõe como condição o pensamento infinito — de modo que da existência daquele passo à existência deste por uma simples visão —, mas ainda que, nessa ideia de Deus, confundida com o ser absoluto, o infinito e o perfeito sempre se encontram unidos; e que, se há uma significação propriamente ontológica do argumento — que repousa sobre a impossibilidade em que estamos de recusar a existência ao infinito desde que o tenhamos posto, ainda que como simples condição do finito de que temos experiência —, há também uma significação propriamente axiológica, na qual seria preciso dizer não apenas, como se fez, que o direito à existência de cada ser é proporcional ao seu grau de perfeição (de modo que, no limite, a existência e a perfeição já não podem ser distinguidas), mas, antes, que, se o ser é ato, ele traz inteiramente em si sua própria razão de ser, ou sua própria suficiência, da qual a própria perfeição é apenas outro nome.

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