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Introdução à ontologia · Primeira parte / Conexão

Conexão

Parágrafo 47

A distinção e a relação entre as três noções tornam-se mais marcantes quando as confrontamos com o tempo e com a eternidade. No que diz respeito ao próprio ser, dizer que ele é eterno é dizer também que não há nele intervalo algum entre sua possibilidade e sua atualidade. Por um lado, quando o consideramos tal como é em si, ele é ato e, por conseguinte, sempre atual. Sua eternidade é a de um presente ao qual nada falta e que jamais pode esmorecer. E quando se diz que ele é intemporal, é por excesso e não por defeito; não no sentido de que aboliria o tempo, mas neste outro sentido mais profundo: que ele não cessa de sustentá-lo e de produzi-lo, tanto em seu porvir e em seu passado quanto no próprio instante que os converte um no outro indefinidamente. Por outro lado, se o consideramos não tal como é em si, mas tal como é em relação a todos os modos que dele participam, então ele mesmo é como uma possibilidade infinita da qual estes extraem, precisamente, tudo o que os faz ser. Mas essa possibilidade é, ela mesma, intemporal. — Ao contrário, o que caracteriza a existência é implicar o tempo e ser-lhe, por assim dizer, contemporânea — não apenas porque o tempo é o intervalo que a separa do ser, mas porque o tempo é o único meio de que ela dispõe para criar-se a si mesma, isto é, para atribuir-se sua própria possibilidade a fim de atualizá-la. Pois a possibilidade precisa do porvir para ser situada antes de penetrar no presente em que se realiza, e, depois, no passado em que está realizada. O tempo nada mais é do que a condição de atualização da possibilidade — isto é, do exercício da liberdade: é a lei da existência. Convém, contudo, notar que a existência não está situada em nenhum dos momentos do tempo, pois ela não está nem no porvir, nem no presente do instante, nem no passado, mas preenche o tempo sem permitir que nenhum desses momentos seja isolado dos demais. É preciso dizer, enfim, que ela é sempre, ela mesma, espiritual — isto é, que sempre transforma o virtual em cumprido, sendo o primeiro uma intenção do querer e o segundo uma posse da memória. Para isso, ela atravessa, sem dúvida, o instante em que se realiza, mas nele jamais permanece. — Ora, é no instante que não apenas se efetua toda realização, mas reside toda realidade. Não se pode dizer que essa realidade seja arrastada no tempo, ou que se identifique ao devir. Pois esse devir é sempre a ligação de uma realidade dada a um porvir ou a um passado que não o são — que pertencem, sem dúvida, à realidade enquanto o pensamento os representa, mas não enquanto se opõem a uma presença dada, na qual um ainda não penetrou e o outro já deixou. Por conseguinte, é preciso dizer da realidade que ela é sempre puramente instantânea, que não cessa de nascer e de morrer, marcando as diferentes etapas pelas quais a existência se constitui, e fornecendo-lhes mesmo seu conteúdo, mas incapaz de ligá-las entre si — pois essa ligação é sempre o efeito de um ato que nossa consciência deve cumprir, e que é a marca mesma da existência. Não há, portanto, senão a existência que esteja engajada no tempo: mas o ser está acima dele, embora o contenha — o que se exprime dizendo que ele é eterno —; e a realidade está abaixo, embora nele entre como um instante que não teria, ele mesmo, nem passado nem porvir — o que se pode exprimir dizendo que ela é evanescente.

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