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Introdução à ontologia · Primeira parte / Conexão

Conexão

Parágrafo 48

Vê-se bem agora por que o ser, a existência e a realidade não são apenas modalidades diferentes da afirmação, mas designam ainda objetos concretos muito diferentes, aos quais a afirmação pode ser aplicada. A palavra ser, tomada não mais em sua relatividade — que faz com que todo objeto da afirmação seja um modo do ser —, mas nessa pureza perfeita que exclui toda relatividade e implica a interioridade absoluta, só convém a Deus, isto é, ao espírito. Por isso, trata-se muito menos de dizer de Deus que ele é, do que de dizer que ele é o Ser: e a definição mesma de Deus é a daquele que é — ou, melhor ainda, daquele que pode dizer de si mesmo «eu sou», pois ele é o princípio mesmo de seu ser, ou causa sui, e sua essência se esgota em tal afirmação. Mas ele é também o ser de todas as coisas, e de nenhuma se pode dizer que é, a não ser por sua relação com ele; dizer dela, como por vezes se faz, que seu ser próprio é puro nada, é apenas marcar que ela só se distingue do ser absoluto pelo grau de sua participação ou pelo intervalo que dele a separa. Ao contrário, é falar, sem dúvida, inexatamente — e suscitar muitos falsos problemas — dizer de Deus que ele existe, como se ele mesmo surgisse do nada, ou como se uma distinção pudesse intervir nele entre sua essência e sua existência. — Mas tal é a razão pela qual é preciso dizer do eu que ele existe. E, sem dúvida, não há outra existência senão a do eu ou da consciência. Essa existência o desprende, com efeito, do ser puro, mas como uma possibilidade que lhe cabe pôr em prática. É essa colocação em prática da possibilidade que é a própria existência. Vê-se isso bem no Cogito, do qual Descartes mostra que ele basta para inscrever-nos no ser, mas que, ao mesmo tempo, nos dá a nós mesmos a existência. Contudo, enquanto o eu é definido apenas pelo pensamento, não é mais do que uma possibilidade de pensar; para que esse pensamento se atualize, é preciso que se determine, é preciso que reencontre sua ligação com o corpo do qual se havia separado, que encontre diante de si um objeto, que é o universo, e do qual fará a ciência, que introduza nele sua ação — pela qual contribui, imprimindo nele sua marca, para formar tudo o que somos. — É desse universo que dizemos que é real, assim como de nosso próprio corpo e de todas as outras coisas que o preenchem. Em comparação, sempre experimentamos alguma dificuldade em considerar como real o possível, ou a lembrança, ou a liberdade, ou o próprio Deus: é que esse nome só convém ao que é dado, ao que se nos impõe contra nossa vontade e em relação ao qual somos, nós mesmos, passivos. Por isso, não surpreende que consideremos irreais todas as operações de pensamento que ainda não correspondem a nenhum dado; mas elas só suscitam esse dado que as realiza pela limitação mesma que as cerca. Compreende-se facilmente, contudo, que o ser de Deus, a existência do eu ou a realidade do mundo possam comportar igualmente uma adequação aparente com o todo, quando se considera cada uma dessas noções sob uma forma exclusiva, sem buscar seu parentesco com as duas outras — como se vê no panteísmo, no idealismo e no materialismo.

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