Conexão
Parágrafo 46
A relação entre o segredo e a manifestação permite dar uma descrição mais precisa das relações entre a interioridade e a exterioridade. Com efeito, mostramos a respeito do ser que ele é anterior à distinção entre a essência e a existência, e que a pluralidade das essências não é atualizada no ser antes que ele seja oferecido, ele mesmo, em participação, e que a existência tenha se posto a assumi-las. Por conseguinte, o ser é a fonte — e não a soma — de todas as essências, a eficácia soberana da qual elas jorram antes de dividir-se. É segredo, e não manifestado. — A manifestação é obra da existência — não que se possa confundir a existência com a própria manifestação, como muitas vezes se faz quando se atém ao par clássico da essência e da existência: pois, então, a existência não se distingue da realidade. Mas é preciso dizer que o que caracteriza a existência é, precisamente, obrigar o ser a manifestar-se como um efeito do ato mesmo pelo qual ela se constitui. Por outro lado, esse ato é o ato próprio de uma liberdade que, ao determinar-se, dá a si mesma uma essência; ela isola essa essência no interior do ser puro a fim de torná-la sua. E só pode fazê-lo se, arrancando-a à simples possibilidade, a atualiza por um ato que depende apenas dela, mas que só pode comprometê-la se a obriga a tomar lugar como existência em um universo real, em que ela se torna solidária a todas as outras existências. — Quanto à realidade, não se pode distingui-la da própria manifestação. E, sem dúvida, se a tomamos em si, ela não passa de uma aparência ou de um fenômeno. Mas só se lhe pode dar um sentido com a condição de fazer dela, indivisivelmente, uma aparência e uma manifestação. E ela merece os dois nomes ao mesmo tempo, pois, por um lado, é manifestação — não, como se crê, da essência, mas, antes, do ato pelo qual a existência busca adquirir uma essência —; e, por outro lado, ela só pode ser a manifestação de tal ato com a condição de que esse próprio ato encontre um limite, que faça surgir diante dele um dado e o fenomenalize. De modo que ela manifesta não tanto esse próprio ato quanto tudo o que, no ser, o ultrapassa e que ele obriga, precisamente, a converter-se em uma aparência. Assim, a mesma realidade deve ser olhada, alternadamente, como uma aparência e como uma manifestação: mas é manifestação em relação ao ato que a evoca, e aparência em relação a tudo o que o supera. E há entre os dois termos uma espécie de reciprocidade, se é verdade que toda manifestação de um ato que eu mesmo busco produzir não passa de aparência para quem a olha de fora, e que toda coisa exterior a mim — e que, para mim, é apenas aparência — pode ser olhada também como a manifestação de uma atividade que já não é a minha. Assim, não há um único aspecto da realidade que, pela junção da atividade e da passividade, e por seu duplo caráter de manifestação e de aparência em relação à participação e a seu para-além, não revele, em cada ponto, a presença total do ser. Em resumo, vê-se que o ser é essa intimidade oculta e não manifestada em que a existência busca sua própria essência, da qual só pode apropriar-se manifestando-se; e é essa manifestação que chamamos a realidade.